terça-feira, 17 de agosto de 2010

Renovação

Chove lá fora. Está frio. Meu coração está nublado como o tempo. Sinto minhas mãos gélidas. Mas isso me dá paz. A música que toca. Talvez toque apenas em meu coração, em minha alma. Não paro de pensar. Penso em tudo o que foi, no que está sendo e no que possa ser. Penso em meus demônios interiores. E lembro de meus anjos, que são fortes, e estão sempre prontos a combatê-los. Penso em você... Queria que estivesses aqui. Comigo. Mas não está. E essa solidão me consome. O medo me atormenta. Começo a pensar no passado. Nos amigos que se foram. Nos sorrisos que estão hoje presos em fotografias. Mergulho dentro de mim. Sem medo de me perder. Descubro um universo novo. Inexplorado. Com lugares lindos, felizes. Outros que não sou capaz de descrever.
Conheci campos vazios. Ainda precisando ser cultivados, cativados. Resolvi que voltaria ali mais tarde, com calma. Simpatizei com aquele lugar. Continuei a caminhar. A conhecer, a me reconhecer. Encontrei sonhos esquecidos, desejos que jamais se realizaram. Passei pelos livros que li. Tive de parar. Ali revi velhos amigos. Sherlock, com seu velho cachimbo na boca e tocando violino. Morgana, com a marca azul intacta na fronte. Sua sabedoria ainda me encanta. Despedi-me. Prometi que em breve voltaria. Andei. Andei. Cheguei num lugar escuro. Onde era sempre noite. Percebi que era onde residiam meus medos e angustias. Fraquejei. Mas tomei coragem, e segui em frente. Passei por pequenos diabretes, que jaziam fracos. Eram medos antigos. Há muito esquecidos. Enxotei-os dali, para que não mais voltassem. Estava em busca de outros temores. Maiores e mais fortes. Era chegada à hora de encará-los. Não foi fácil. Não sei quanto tempo passei ali, naquela batalha interior... Mas havia conseguido. Meus anjos, sempre fiéis amigos, a meu lado. Jamais os tinha visto até então. Apenas os sentia, os ouvia. Estava feito. Aquele lugar estava limpo, aberto a novos medos. Jamais pretendi deixar de temer. Apenas não queria mais aqueles antigos temores.
Fiquei feliz. Havia conhecido boa parte de mim. Contudo, descobri que nunca me conheceria por completo. Para onde olhava, via um horizonte infindável. Voltei aos campos vazios pelos quais tinha passado no inicio. Ali, plantei tudo o que gostava. Plantei amor, compreensão... Construí naquele recôndito um templo. Aonde hoje, vou para pensar. Pelas redondezas se encontrava a música. Ouvi-a do templo. Precisava voltar. Fiz meu o caminho de regresso. Passei pelas cores. Pelos números. Fui surpreendido, quando vi alguém além de mim por ali. Achei que fosse minha imaginação. Mas ela estava em outro canto. Quem ousava estar ali? Cheguei perto. Foi então que a vi. Só poderia ser. Por instante nenhum pensei encontrá-la. Era verdade. Ela morava ali. E era uma das coisas que eu queria que ficasse. Embora, acho que já não conseguiria tirá-la de dentro de mim, nem que eu quisesse. Olhamo-nos. Olhares apaixonados. Nos abraçamos, nos beijamos. Eu tinha de ir...
Voltei a mim. O mundo a minha volta estava diferente. As cores, os sons. Tudo. Algo apertava meu peito. Era saudade. Precisava vê-la. Tocá-la. Senti-la. Seu cheiro, sua pele, seu calor. Seu amor, seu carinho, seus abraços. Seus beijos, seu corpo, sua voz. Precisava dela, em sua totalidade. Eu estava certo. Jamais conseguiria tirá-la de dentro de mim. Porque a amo.

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